É tarde. Chega a hora de partir. Lentamente recolho os cacarecos espalhados pelo apartamento, anotando o nome e as dimensões de cada um numa folha de papel pautado. Esse inventário será meu marco, minha referência, para os anos que se seguirão. Numerosas vezes eu o investigarei, recordando-me do que cada forma evocava, quais as lembranças e os sujeitos relacionados, o que ocorreu para que cada objeto chegasse a meu poder - um presente, uma herança, uma partilha... os despojos de um divórcio bem-sucedido, ou uma compra pura e simples. Eu relacionarei cada item e partirei sem bagagem: a bagagem é uma seleção de posses, e eu não sei se estou disposto a discriminar alguma coisa em nome do resto. Prefiro partir leve quando minha hora chegar.
Ao terminar o inventário, ergo-me da cadeira e saio para a rua. Está frio. Vêem-se as pessoas apenas ao longe. Em breve, deixarei isto aqui. Não sei se volto. Partir vem a calhar, sabe. Parto para fugir de algo. Sempre buscamos escapar de alguma coisa quando viajamos, nem que seja da monotonia, da ameaça de uma vida simples e comezinha. De bom grado renuncio à segurança de viver numa cidade da qual conheço todos os nomes, acaso isto signifique um novo começo, uma promessa de contínua revolução. Inspiro o ar frio e caminho, sabendo que será pela última vez.
Próximo, há um parque. Gangorras e balanços movem-se com o vento, mas não há ninguém. Com muito esforço, é possível confundir o uivo da brisa passando pelos galhos com o ruído de crianças brincando, mas nem mesmo eu cheguei a esse ponto para ter a solidão dominando meus sentidos.
Ao lado, há um gramado amplo. Aqui sim, estende-se um santuário para a solidão: foi onde enterrei meus amores. Ainda os vejo, cobertos por uma fina camada de sal para que nada cresça por cima. No topo, um punhado de terra estéril que serve como lápide. Nomes não são necessários, eu os conheço a todos. Cada um nasceu e morreu da maneira mais dolorosa. Erra quem pensa que o homem desconhece a dor do parto. Ele sabe o que é ter algo vivo dentro de si, esperando para nascer, e, em seguida, começar a morrer. Ele apenas pressente o negócio de modo distinto.
Preciso inventariá-los. Eles devem ir comigo. A viagem é longa, e eles me farão companhia. Lentamente, tiro do bolso a folha amarrotada de papel pautado e começo a rabiscar, procurando captar cada nome e suas dimensões, cada forma.
Um comentário:
Eu gosto muito de como sua percepção das coisas se transmutam em palavras.
Poderia passar horas lendo seus textos.
Muito bons.
Um beijo
Isis
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