Numa manhã fria de novembro, percebi que meus pés haviam se apaixonado um pelo outro. Não pude descobrir se o esquerdo seduzira o direito ou vice-versa, mas o fato é que, quando acordei, meus pés se acariciavam com sensualidade. O calcanhar direito se esfregava no dorso do direito, estalando os dedos, os dois parecendo suspirar, penetrando um na intimidade do outro. Obviamente, isto suscitou uma série de dificuldades.
Caminhar na rua tornou-se um suplício: os pés não aguentavam a distância a que eram forçados a ficar e tentavam de todos os modos ficar colados. Caí na calçada várias vezes. Os pés se enroscavam de maneira tal que eu tinha que me arrastar até o poste mais próximo e usá-lo como apoio para me erguer. Os que passavam não sabiam se me tomavam por louco ou se se solidarizavam com meu dilema. Certamente, alguns deles já teriam sofrido com um tórrido caso de amor entre os membros do corpo.
Tentei de tudo, jogar água fria, pisar em brasa viva, usar botas de campanha. Qual Tristão e Isolda, no entanto, a paixão só crescia. À noite, quando finalmente podiam permanecer juntos sem minha interferência, os pés se deleitavam com o contato áspero e lânguido dos calos, dos pés-de-atleta, das unhas mal-cortadas e das fissuras no calcanhar. Um encontrava no outro um corpo inteiro para possuir e sonhar; e eu, alheio a esses encontros furtivos, só percebia a promiscuidade ao despertar de um sono intranquilo, quando sentia os apêndices atracados, perdidos na sanha de recuperar os anos em que ficaram tão separados e tão próximos ao mesmo tempo.
Como tudo o mais na vida, acabei me habituando àquela perdição. Inclusive, via na paixão desenfreada dos pés um reflexo distorcido do que acabara de ter sido minha relação com Júlia. Os pés, quando brigavam, ficavam o mais distantes um do outro, forçando-me a andar tal bailarino, com as pernas arreganhadas. No final do dia, porém, tudo se resolvia com os dedos entrelaçados dos pés, fitando a lua que se via da janela do meu quarto.
Também eu e Júlia discutimos; também nos atracamos. Nosso roteiro não escapou dos clichês de filmes americanos. Também sofremos, nos redimimos e cada um foi para seu lado. Ainda assim, a falta que esses clichês me faziam...
Numa manhã de novembro, acordei com mais frio do que de costume. Abri os olhos: meus pés haviam conspirado com as pernas e me levado para a casa de Júlia. Estupefato, olhei para eles; descalços, tremendo de frio, eles esperavam apenas uma ordem minha para dar aqueles poucos passos rumo à porta.
Há poucas coisas mais agradáveis para um casal do que a companhia de outros namorados.
Caminhar na rua tornou-se um suplício: os pés não aguentavam a distância a que eram forçados a ficar e tentavam de todos os modos ficar colados. Caí na calçada várias vezes. Os pés se enroscavam de maneira tal que eu tinha que me arrastar até o poste mais próximo e usá-lo como apoio para me erguer. Os que passavam não sabiam se me tomavam por louco ou se se solidarizavam com meu dilema. Certamente, alguns deles já teriam sofrido com um tórrido caso de amor entre os membros do corpo.
Tentei de tudo, jogar água fria, pisar em brasa viva, usar botas de campanha. Qual Tristão e Isolda, no entanto, a paixão só crescia. À noite, quando finalmente podiam permanecer juntos sem minha interferência, os pés se deleitavam com o contato áspero e lânguido dos calos, dos pés-de-atleta, das unhas mal-cortadas e das fissuras no calcanhar. Um encontrava no outro um corpo inteiro para possuir e sonhar; e eu, alheio a esses encontros furtivos, só percebia a promiscuidade ao despertar de um sono intranquilo, quando sentia os apêndices atracados, perdidos na sanha de recuperar os anos em que ficaram tão separados e tão próximos ao mesmo tempo.
Como tudo o mais na vida, acabei me habituando àquela perdição. Inclusive, via na paixão desenfreada dos pés um reflexo distorcido do que acabara de ter sido minha relação com Júlia. Os pés, quando brigavam, ficavam o mais distantes um do outro, forçando-me a andar tal bailarino, com as pernas arreganhadas. No final do dia, porém, tudo se resolvia com os dedos entrelaçados dos pés, fitando a lua que se via da janela do meu quarto.
Também eu e Júlia discutimos; também nos atracamos. Nosso roteiro não escapou dos clichês de filmes americanos. Também sofremos, nos redimimos e cada um foi para seu lado. Ainda assim, a falta que esses clichês me faziam...
Numa manhã de novembro, acordei com mais frio do que de costume. Abri os olhos: meus pés haviam conspirado com as pernas e me levado para a casa de Júlia. Estupefato, olhei para eles; descalços, tremendo de frio, eles esperavam apenas uma ordem minha para dar aqueles poucos passos rumo à porta.
Há poucas coisas mais agradáveis para um casal do que a companhia de outros namorados.
Nenhum comentário:
Postar um comentário