quinta-feira, 27 de março de 2008
feliz aniversário
quarta-feira, 12 de março de 2008
mariluce
terça-feira, 11 de março de 2008
meus pés
Caminhar na rua tornou-se um suplício: os pés não aguentavam a distância a que eram forçados a ficar e tentavam de todos os modos ficar colados. Caí na calçada várias vezes. Os pés se enroscavam de maneira tal que eu tinha que me arrastar até o poste mais próximo e usá-lo como apoio para me erguer. Os que passavam não sabiam se me tomavam por louco ou se se solidarizavam com meu dilema. Certamente, alguns deles já teriam sofrido com um tórrido caso de amor entre os membros do corpo.
Tentei de tudo, jogar água fria, pisar em brasa viva, usar botas de campanha. Qual Tristão e Isolda, no entanto, a paixão só crescia. À noite, quando finalmente podiam permanecer juntos sem minha interferência, os pés se deleitavam com o contato áspero e lânguido dos calos, dos pés-de-atleta, das unhas mal-cortadas e das fissuras no calcanhar. Um encontrava no outro um corpo inteiro para possuir e sonhar; e eu, alheio a esses encontros furtivos, só percebia a promiscuidade ao despertar de um sono intranquilo, quando sentia os apêndices atracados, perdidos na sanha de recuperar os anos em que ficaram tão separados e tão próximos ao mesmo tempo.
Como tudo o mais na vida, acabei me habituando àquela perdição. Inclusive, via na paixão desenfreada dos pés um reflexo distorcido do que acabara de ter sido minha relação com Júlia. Os pés, quando brigavam, ficavam o mais distantes um do outro, forçando-me a andar tal bailarino, com as pernas arreganhadas. No final do dia, porém, tudo se resolvia com os dedos entrelaçados dos pés, fitando a lua que se via da janela do meu quarto.
Também eu e Júlia discutimos; também nos atracamos. Nosso roteiro não escapou dos clichês de filmes americanos. Também sofremos, nos redimimos e cada um foi para seu lado. Ainda assim, a falta que esses clichês me faziam...
Numa manhã de novembro, acordei com mais frio do que de costume. Abri os olhos: meus pés haviam conspirado com as pernas e me levado para a casa de Júlia. Estupefato, olhei para eles; descalços, tremendo de frio, eles esperavam apenas uma ordem minha para dar aqueles poucos passos rumo à porta.
Há poucas coisas mais agradáveis para um casal do que a companhia de outros namorados.
segunda-feira, 3 de março de 2008
partir
Ao terminar o inventário, ergo-me da cadeira e saio para a rua. Está frio. Vêem-se as pessoas apenas ao longe. Em breve, deixarei isto aqui. Não sei se volto. Partir vem a calhar, sabe. Parto para fugir de algo. Sempre buscamos escapar de alguma coisa quando viajamos, nem que seja da monotonia, da ameaça de uma vida simples e comezinha. De bom grado renuncio à segurança de viver numa cidade da qual conheço todos os nomes, acaso isto signifique um novo começo, uma promessa de contínua revolução. Inspiro o ar frio e caminho, sabendo que será pela última vez.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
rumo
Não pude discernir muito mais pelos sons. Num relance qualquer, vi seu rosto, sentei nervoso. Conversamos em silêncio, de costas, fingindo nos distrair com os pequenos movimentos dos passageiros e com a paisagem iluminada que permanecia em monótono e constante fluxo.
Falamo-nos na primeira parada. Não me recordo da desculpa que usei para me aproximar. Algum comentário sobre a viagem ou sobre o banheiro do ônibus, talvez, ou uma pergunta casual sobre a música que você ouvia em fones de ouvido. Não importa. Em breve estávamos lado a lado, e pude completar o esboço de seu rosto. Tampouco me lembro do que conversamos. Caí em mim apenas quando soou a buzina do ônibus, e ambos retornamos para nossos assentos.
(Leio agora e percebo que não escrevi o destino, o motivo da viagem, nem as circunstâncias em que ela ocorreu. Mas acho que não é sobre isso que quero falar aqui, é irrelevante. Destino ignorado, portanto.)
De pescoço virado, prossegui o diálogo. Tateávamos lentamente as palavras, cautelosos para não atingir um as sensibilidades ainda desconhecidas do outro. Pouco a pouco medimos a distância entre nós, e seus olhos um pouco avermelhados e inchados me esclareceram um pouco dos fatos. Busquei modular minha voz de acordo com a frequência da sua: você não pareceu me tolerar apenas por educação. Seguimos.
Imaginei-me observando o ônibus de cima a muitos quilômetros da terra, um minúsculo retângulo prateado cortando uma linha preta de asfalto perdida na brutal imensidão de verde e areia. Lá, eu não ouviria palavra alguma. Nada existiria além do vento soprando forte nos ouvidos e da luz ainda mais forte que emanava atrás de mim. Em dado momento, uma nuvem projetaria sua sombra no chão, interrompendo esse cenário majestoso. O céu pode ser assim às vezes, injusto.
À noite, falamos seriamente a respeito de uma série de acontecimentos. Descobrimos que nossas experiências não diferiam tanto. Comparamos gostos e preferências, mas até isto pareceu banal para o que procurávamos realizar.
Finalmente, menti que estava com torcicolo e perguntei à moça a seu lado se ela poderia trocar de lugar comigo. Sugestão prontamente aceita, visto que a coitada já não aguentava mais nos ouvir tagarelar. Nada é mais irritante do que a felicidade alheia quando você está sozinho.
Já mergulháramos na escuridão quase completa. Meu mundo visto do céu desaparecera, o retângulo prateado, a estrada, o mato. Confuso, ergui a vista e passei a prestar atenção na silenciosa curvatura da Terra e na brisa gélida que, livre do Sol, esfriava meus ossos e me fazia pensar em ritos fúnebres.
Na penumbra, aconchegamos nossas mãos e nossos ombros. Os corpos adquiriram configuração de uníssono, e nossa palavras sumiram em meio ao ruído do vento. Creio que paramos de ouvir o que acontecia a nosso redor. Baixamos os olhos, a guarda. Nada restava para dizer.
Não me lembro se a viagem terminou. Talvez ainda continue.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
este aqui vai pra alguém. ela sabe quem.
Nós somos como aquele menino e seu cachorro, sabe. O tempo todo, eu nado desesperadamente para cima, esperando uma palavra sua, um gesto apaixonado, ou talvez um simples abraço de consolo. Mas você é o menino: você nada faz. Não sei se aprecia me ver nessa situação ou se sente piedade por eu não conseguir resolver o problema sozinho, mas é assim que as coisas são.
Pra falar a verdade, talvez eu até saiba como sair da tina sozinho, mas esteja tão nervoso e tão necessitado que precise de alguém para me mostrar o caminho. Acaso eu parasse alguns segundos e refletisse sobre a situação, estou certo de que eu conseguiria pensar na melhor maneira de sair. Mas sou um homem, e, como tal, prefiro aqueles breves momentos de saciedade e chafurdar na angústia em seguida a pensar sobre minha condição e achar a saída.
Sei que posso fazer tudo sozinho, mas em algum momento enfiei na cabeça a idéia de que preciso de você. Gozado, né?
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
história de nãos
Tenho várias idades ao mesmo tempo, sabia? Para ver, basta me cortar ao meio e contar os anéis do meu tronco: eles se interrompem e continuam nos outros círculos, embaralhando-se numa profusão de anos. Fui agraciado com várias certidões de nascimento e umas poucas de óbito.