quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

este aqui vai pra alguém. ela sabe quem.

Há uma tina d´água perto de casa por onde passo todos os dias no caminho do trabalho. Uma vez, vi um menino brincando com um cachorro que ele havia mergulhado na tina. O cão não sabia nadar e ficava a maior parte do tempo submerso, debatendo-se desesperadamente na vã tentativa de voltar à tona. Finalmente, após encostar a pata no fundo da tina, de alguma forma ele conseguia voltar à superfície, latindo como um louco e gorgolejando a água que saía em pequenas tossidas. No entanto, tão logo sorvia aquele grama de ar tão ansiado, ele voltava lentamente a afundar, incapaz de manter a cabeça fora por muito tempo. O menino, com os braços cruzados, assistia a tudo com atenção e tranquilidade impecáveis.

Nós somos como aquele menino e seu cachorro, sabe. O tempo todo, eu nado desesperadamente para cima, esperando uma palavra sua, um gesto apaixonado, ou talvez um simples abraço de consolo. Mas você é o menino: você nada faz. Não sei se aprecia me ver nessa situação ou se sente piedade por eu não conseguir resolver o problema sozinho, mas é assim que as coisas são.

Pra falar a verdade, talvez eu até saiba como sair da tina sozinho, mas esteja tão nervoso e tão necessitado que precise de alguém para me mostrar o caminho. Acaso eu parasse alguns segundos e refletisse sobre a situação, estou certo de que eu conseguiria pensar na melhor maneira de sair. Mas sou um homem, e, como tal, prefiro aqueles breves momentos de saciedade e chafurdar na angústia em seguida a pensar sobre minha condição e achar a saída.

Sei que posso fazer tudo sozinho, mas em algum momento enfiei na cabeça a idéia de que preciso de você. Gozado, né?

Você é o menino, e, como tal, possui poder de vida ou morte sobre mim: poderia me tirar da tina ou me afogar de vez, mas não faz nem uma coisa nem outra. Prefere ser testemunha de meu próprio fracasso, dos problemas que eu mesmo inventei.

Talvez não se importe a mínima com o papel de redentora ou assassina. Apenas fica aí parada, acompanhando minha lenta descida ao abismo, seguida de breve ascensão para uma nova decadência e assim por diante. Assim seguimos, todos os dias, em silêncio, sem que um reclame do outro, sem que nossos olhares demonstrem alguma coisa além de uma profunda decepção mútua.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

história de nãos

Você sabe o quanto eu tenho que me esforçar pra não demonstrar o que sinto?

Não, não sabe, nunca teve idéia. Fui obrigado a mudar minha composição fisiológica para que meu corpo não me traísse, para que meus olhos não me denunciassem. Extraí meu sangue e o substituí por água gelada; inseri cirurgicamente uma prótese dos músculos da face, das sobrancelhas, dos lábios. Adotei uma dieta rigorosa que, após alguns anos, finalmente me proporcionou total domínio sobre minha carne, desde os movimentos peristálticos até as batidas cardíacas. Lentamente, me adaptei a uma normalidade que apenas eu sabia falsa. Tudo em nome de uma mentira. Por três anos, bati cada prego do meu esquife como um obediente carpinteiro.

Vivo hoje numa dimensão de sonho, repleta de vielas longas, esquinas abruptas, ruas feias que encerram desejos frustrados e numerosas desilusões. Digo a mim mesmo, esconder esse catálogo de erros é necessário. Não há vida sadia para aquele que conta a verdade.

Existiu um tempo em que eu vislumbrava a realização de meu amor por você. Caso eu insista em caminhar muito por aquelas vielas e esquinas, sei que acabarei chegando onde depositei esses desejos. Mas o que penso agora é que talvez seja melhor que essas lembranças não aflorem. Mesmo a simples evocação de um desejo antigo é perigosa: ela desencadeia forças que se pensavam mortas. Assim, o que busco hoje é mantê-las mortas.

Não atingirei a felicidade, mas, ao menos, não abandonarei a segurança e a estabilidade que três longos anos de labor incessante me legaram.

Esta não é uma ode à mentira. Não creio que seja possível ser feliz vivendo mentiras. Apenas creio que não seja possível viver de outra forma. Portanto, não acredito que a felicidade seja possível. É todo um jogo de balanças e contrapesos.

Talvez estas sejam meras alucinações de quem ainda não existiu o suficiente, de quem não amou o bastante, de quem não sofreu o bastante. Talvez seja apenas uma fase. Talvez.

Acaso a felicidade e o prazer fossem atingíveis, no entanto, você estaria comigo. Eu não estaria vivendo um coma induzido, todas as minhas partes se encontrariam no lugar e eu não teria várias idades ao mesmo tempo.

Tenho várias idades ao mesmo tempo, sabia? Para ver, basta me cortar ao meio e contar os anéis do meu tronco: eles se interrompem e continuam nos outros círculos, embaralhando-se numa profusão de anos. Fui agraciado com várias certidões de nascimento e umas poucas de óbito.

Acaso você estivesse de volta ao meu corpo, as luzes apagadas, eu me cortaria e guiaria seus dedos pelos anéis de meu torso. Eu deixaria você contar o que é impossível contar. Eu lhe beijaria, indiferente à ausência dos lábios, eu te faria uma criatura plena sem que você percebesse. Não sabe que posso realizar todas essas coisas? Eu posso. Há poucos feitos fora do alcance das criaturas verdadeiramente apaixonadas.

Desconheço o porquê de murmurar essas coisas no escuro. Você não vem. Sei disso agora, como o sabia antes. Piso nas mesmas minas enterradas a poucos centímetros da superfície.

Até minha voz parece alterada, um gorgolejo seco reminiscente dos primeiros primatas.

Eu conheço seu rosto, mas não tente mais conhecer o meu. Já disse, estou cheio de próteses e me corre água gelada nas veias. Estou irreconhecível. Não nos cumprimentaremos na rua, não frequentaremos as mesmas lojas, não teremos amigos em comum. Viveremos nossa história de nãos em silêncio e resignação.