A estrada era longa, a garganta seca, a visão monótona das palmeiras e dos charcos que apareciam nos lugares mais baixos. Sentávamos um na frente do outro. Ambos olhávamos através da janela. Sacolejava o ônibus, fazendo com que a mata que passava representasse um cenário flutuante, o quadro transmutando-se constantemente. Você fungava o nariz de tempo em tempo: lembra-se disso? O que eu pensei que fosse gripe era choro, cujo motivo soube apenas muito depois.
Não pude discernir muito mais pelos sons. Num relance qualquer, vi seu rosto, sentei nervoso. Conversamos em silêncio, de costas, fingindo nos distrair com os pequenos movimentos dos passageiros e com a paisagem iluminada que permanecia em monótono e constante fluxo.
Falamo-nos na primeira parada. Não me recordo da desculpa que usei para me aproximar. Algum comentário sobre a viagem ou sobre o banheiro do ônibus, talvez, ou uma pergunta casual sobre a música que você ouvia em fones de ouvido. Não importa. Em breve estávamos lado a lado, e pude completar o esboço de seu rosto. Tampouco me lembro do que conversamos. Caí em mim apenas quando soou a buzina do ônibus, e ambos retornamos para nossos assentos.
(Leio agora e percebo que não escrevi o destino, o motivo da viagem, nem as circunstâncias em que ela ocorreu. Mas acho que não é sobre isso que quero falar aqui, é irrelevante. Destino ignorado, portanto.)
De pescoço virado, prossegui o diálogo. Tateávamos lentamente as palavras, cautelosos para não atingir um as sensibilidades ainda desconhecidas do outro. Pouco a pouco medimos a distância entre nós, e seus olhos um pouco avermelhados e inchados me esclareceram um pouco dos fatos. Busquei modular minha voz de acordo com a frequência da sua: você não pareceu me tolerar apenas por educação. Seguimos.
Imaginei-me observando o ônibus de cima a muitos quilômetros da terra, um minúsculo retângulo prateado cortando uma linha preta de asfalto perdida na brutal imensidão de verde e areia. Lá, eu não ouviria palavra alguma. Nada existiria além do vento soprando forte nos ouvidos e da luz ainda mais forte que emanava atrás de mim. Em dado momento, uma nuvem projetaria sua sombra no chão, interrompendo esse cenário majestoso. O céu pode ser assim às vezes, injusto.
À noite, falamos seriamente a respeito de uma série de acontecimentos. Descobrimos que nossas experiências não diferiam tanto. Comparamos gostos e preferências, mas até isto pareceu banal para o que procurávamos realizar.
Finalmente, menti que estava com torcicolo e perguntei à moça a seu lado se ela poderia trocar de lugar comigo. Sugestão prontamente aceita, visto que a coitada já não aguentava mais nos ouvir tagarelar. Nada é mais irritante do que a felicidade alheia quando você está sozinho.
Já mergulháramos na escuridão quase completa. Meu mundo visto do céu desaparecera, o retângulo prateado, a estrada, o mato. Confuso, ergui a vista e passei a prestar atenção na silenciosa curvatura da Terra e na brisa gélida que, livre do Sol, esfriava meus ossos e me fazia pensar em ritos fúnebres.
Na penumbra, aconchegamos nossas mãos e nossos ombros. Os corpos adquiriram configuração de uníssono, e nossa palavras sumiram em meio ao ruído do vento. Creio que paramos de ouvir o que acontecia a nosso redor. Baixamos os olhos, a guarda. Nada restava para dizer.
Não me lembro se a viagem terminou. Talvez ainda continue.
Não pude discernir muito mais pelos sons. Num relance qualquer, vi seu rosto, sentei nervoso. Conversamos em silêncio, de costas, fingindo nos distrair com os pequenos movimentos dos passageiros e com a paisagem iluminada que permanecia em monótono e constante fluxo.
Falamo-nos na primeira parada. Não me recordo da desculpa que usei para me aproximar. Algum comentário sobre a viagem ou sobre o banheiro do ônibus, talvez, ou uma pergunta casual sobre a música que você ouvia em fones de ouvido. Não importa. Em breve estávamos lado a lado, e pude completar o esboço de seu rosto. Tampouco me lembro do que conversamos. Caí em mim apenas quando soou a buzina do ônibus, e ambos retornamos para nossos assentos.
(Leio agora e percebo que não escrevi o destino, o motivo da viagem, nem as circunstâncias em que ela ocorreu. Mas acho que não é sobre isso que quero falar aqui, é irrelevante. Destino ignorado, portanto.)
De pescoço virado, prossegui o diálogo. Tateávamos lentamente as palavras, cautelosos para não atingir um as sensibilidades ainda desconhecidas do outro. Pouco a pouco medimos a distância entre nós, e seus olhos um pouco avermelhados e inchados me esclareceram um pouco dos fatos. Busquei modular minha voz de acordo com a frequência da sua: você não pareceu me tolerar apenas por educação. Seguimos.
Imaginei-me observando o ônibus de cima a muitos quilômetros da terra, um minúsculo retângulo prateado cortando uma linha preta de asfalto perdida na brutal imensidão de verde e areia. Lá, eu não ouviria palavra alguma. Nada existiria além do vento soprando forte nos ouvidos e da luz ainda mais forte que emanava atrás de mim. Em dado momento, uma nuvem projetaria sua sombra no chão, interrompendo esse cenário majestoso. O céu pode ser assim às vezes, injusto.
À noite, falamos seriamente a respeito de uma série de acontecimentos. Descobrimos que nossas experiências não diferiam tanto. Comparamos gostos e preferências, mas até isto pareceu banal para o que procurávamos realizar.
Finalmente, menti que estava com torcicolo e perguntei à moça a seu lado se ela poderia trocar de lugar comigo. Sugestão prontamente aceita, visto que a coitada já não aguentava mais nos ouvir tagarelar. Nada é mais irritante do que a felicidade alheia quando você está sozinho.
Já mergulháramos na escuridão quase completa. Meu mundo visto do céu desaparecera, o retângulo prateado, a estrada, o mato. Confuso, ergui a vista e passei a prestar atenção na silenciosa curvatura da Terra e na brisa gélida que, livre do Sol, esfriava meus ossos e me fazia pensar em ritos fúnebres.
Na penumbra, aconchegamos nossas mãos e nossos ombros. Os corpos adquiriram configuração de uníssono, e nossa palavras sumiram em meio ao ruído do vento. Creio que paramos de ouvir o que acontecia a nosso redor. Baixamos os olhos, a guarda. Nada restava para dizer.
Não me lembro se a viagem terminou. Talvez ainda continue.