É tolice pensar que a mente humana está em processo de constante evolução; que, a cada momento, aprendemos mais coisas, adquirimos mais experiência, ficamos mais sábios e preparados para o que nos espera. Eu não me sinto melhor a cada dia que passa. Não acho que me torne mais inteligente apenas porque enfrentei mais desafios e os superei ou fracassei. Parece uma falácia dizer isso, mas é verdade. Nossa vida não é uma linha reta, surgindo da escuridão e deslizando rumo à luz, até o ponto em que todos estejamos sob um grande holofote de compreensão e tolerância.
A experiência não nos torna mais sábios, apenas mais cansados. Em média, nossa personalidade está formada por completo desde os 14 anos de idade. Todas nossas ações a partir daí são reflexos de estruturas anteriores. Obtido um mínimo necessário de habilidades, o que nos espera no futuro são repetições de raciocínios que já empreendemos no passado.
Clara chegou a tais conclusões ao acordar na madrugada de seu 28o. aniversário. Lembrou-se automaticamente do evento e, de supetão, veio o pensamento de que não havia acumulado nada de muito útil naqueles últimos dez anos. Refletiu que seu namorado atual era, noves fora, muito parecido com seu primeiro namorado; percebeu que não havia feito nada do que havia sonhado - apesar de já ter sonhado muito, sobre várias coisas diferentes -, mas que suas realizações até então já eram previsíveis desde que cursara o 1o. grau. Não notou muitas mudanças no físico ou no temperamento. Não se tornara mais paciente, como a mãe desejara, nem mais sábia com o passar dos anos. Se alguma coisa, sentia-se burra por ter deixado escapar tantas oportunidades.
Mais tarde, encontrou-se rodeada de amigos, todos a abraçando e a congratulando por mais um aniversário. Parabéns pra quê?, perguntou a si mesma. Pela sobrevivência? Por ter aguentado mais um ano quanto tanta gente estava despencando na depressão ou estourando os miolos? Não entendia como tantas pessoas inteligentes podiam ser tão fúteis. Tudo o que tinha de valor eram suas boas memórias de uma juventude vivida com alegria, mas nem aquilo serviria para redimi-la. Não havia escapado de velhas armadilhas. Os mesmos conflitos e aborrecimentos a afligiam, as mesmas aporrinhações que haviam aparecido desde que abrira os olhos para o mundo.
A vida lhe parecia tão imutável, pensou em meio à algazarra, tão inútil. E ela mal começara.