quinta-feira, 27 de março de 2008

feliz aniversário

(para Isis)

É tolice pensar que a mente humana está em processo de constante evolução; que, a cada momento, aprendemos mais coisas, adquirimos mais experiência, ficamos mais sábios e preparados para o que nos espera. Eu não me sinto melhor a cada dia que passa. Não acho que me torne mais inteligente apenas porque enfrentei mais desafios e os superei ou fracassei. Parece uma falácia dizer isso, mas é verdade. Nossa vida não é uma linha reta, surgindo da escuridão e deslizando rumo à luz, até o ponto em que todos estejamos sob um grande holofote de compreensão e tolerância.

A experiência não nos torna mais sábios, apenas mais cansados. Em média, nossa personalidade está formada por completo desde os 14 anos de idade. Todas nossas ações a partir daí são reflexos de estruturas anteriores. Obtido um mínimo necessário de habilidades, o que nos espera no futuro são repetições de raciocínios que já empreendemos no passado.

Clara chegou a tais conclusões ao acordar na madrugada de seu 28o. aniversário. Lembrou-se automaticamente do evento e, de supetão, veio o pensamento de que não havia acumulado nada de muito útil naqueles últimos dez anos. Refletiu que seu namorado atual era, noves fora, muito parecido com seu primeiro namorado; percebeu que não havia feito nada do que havia sonhado - apesar de já ter sonhado muito, sobre várias coisas diferentes -, mas que suas realizações até então já eram previsíveis desde que cursara o 1o. grau. Não notou muitas mudanças no físico ou no temperamento. Não se tornara mais paciente, como a mãe desejara, nem mais sábia com o passar dos anos. Se alguma coisa, sentia-se burra por ter deixado escapar tantas oportunidades.

Mais tarde, encontrou-se rodeada de amigos, todos a abraçando e a congratulando por mais um aniversário. Parabéns pra quê?, perguntou a si mesma. Pela sobrevivência? Por ter aguentado mais um ano quanto tanta gente estava despencando na depressão ou estourando os miolos? Não entendia como tantas pessoas inteligentes podiam ser tão fúteis. Tudo o que tinha de valor eram suas boas memórias de uma juventude vivida com alegria, mas nem aquilo serviria para redimi-la. Não havia escapado de velhas armadilhas. Os mesmos conflitos e aborrecimentos a afligiam, as mesmas aporrinhações que haviam aparecido desde que abrira os olhos para o mundo.

A vida lhe parecia tão imutável, pensou em meio à algazarra, tão inútil. E ela mal começara.

quarta-feira, 12 de março de 2008

mariluce

Bem. Hm. Fala comigo, bem. Que é? Você ainda me ama? Pelo amor de Deus, Mariluce, vai dormir. A gente nunca tem tempo pra conversar. De madrugada não, né. Fala comigo só um pouquinho. Deixa eu dormir. Só um pouquinho. Não. Seu chato. Não. Você nunca mais conversou comigo. Hm. Você não me ama mais. Amo sim. Ama nada. Amo sim. Coisa nenhuma. Sim. Não custa nada. Eu acordo cedo, Mariluce. Eu sei disso. Então. Mas você pode conversar cinco minutos comigo. Nós estamos conversando. Isso é briga, não conversa. Que seja. Você é mesquinho, Edvaldo. Deixa eu dormir, cacete. O quê?! Deixa eu dormir. Não, você falou "cacete". Não falei. Falou sim, seu grosso! Não. Sim! Pelos cus de Judas, vamos dormir. Pára de falar palavrão, o Francisquinho vai ouvir! Deixa ouvir, ele já tá na idade. Você quer que seu filho cresça feito um grosseirão como você? Eu só quero dormir. Irreponsável. Hm. Seu completo irresponsável. Você não vai conseguir estragar meu sono. Incapaz de falar uma palavra gentil. Meu bem, vamos dormir. Cínico. Hm. Grosso. Tá. Afinal, você ainda me ama ou não?!

terça-feira, 11 de março de 2008

meus pés

Numa manhã fria de novembro, percebi que meus pés haviam se apaixonado um pelo outro. Não pude descobrir se o esquerdo seduzira o direito ou vice-versa, mas o fato é que, quando acordei, meus pés se acariciavam com sensualidade. O calcanhar direito se esfregava no dorso do direito, estalando os dedos, os dois parecendo suspirar, penetrando um na intimidade do outro. Obviamente, isto suscitou uma série de dificuldades.

Caminhar na rua tornou-se um suplício: os pés não aguentavam a distância a que eram forçados a ficar e tentavam de todos os modos ficar colados. Caí na calçada várias vezes. Os pés se enroscavam de maneira tal que eu tinha que me arrastar até o poste mais próximo e usá-lo como apoio para me erguer. Os que passavam não sabiam se me tomavam por louco ou se se solidarizavam com meu dilema. Certamente, alguns deles já teriam sofrido com um tórrido caso de amor entre os membros do corpo.

Tentei de tudo, jogar água fria, pisar em brasa viva, usar botas de campanha. Qual Tristão e Isolda, no entanto, a paixão só crescia. À noite, quando finalmente podiam permanecer juntos sem minha interferência, os pés se deleitavam com o contato áspero e lânguido dos calos, dos pés-de-atleta, das unhas mal-cortadas e das fissuras no calcanhar. Um encontrava no outro um corpo inteiro para possuir e sonhar; e eu, alheio a esses encontros furtivos, só percebia a promiscuidade ao despertar de um sono intranquilo, quando sentia os apêndices atracados, perdidos na sanha de recuperar os anos em que ficaram tão separados e tão próximos ao mesmo tempo.

Como tudo o mais na vida, acabei me habituando àquela perdição. Inclusive, via na paixão desenfreada dos pés um reflexo distorcido do que acabara de ter sido minha relação com Júlia. Os pés, quando brigavam, ficavam o mais distantes um do outro, forçando-me a andar tal bailarino, com as pernas arreganhadas. No final do dia, porém, tudo se resolvia com os dedos entrelaçados dos pés, fitando a lua que se via da janela do meu quarto.

Também eu e Júlia discutimos; também nos atracamos. Nosso roteiro não escapou dos clichês de filmes americanos. Também sofremos, nos redimimos e cada um foi para seu lado. Ainda assim, a falta que esses clichês me faziam...

Numa manhã de novembro, acordei com mais frio do que de costume. Abri os olhos: meus pés haviam conspirado com as pernas e me levado para a casa de Júlia. Estupefato, olhei para eles; descalços, tremendo de frio, eles esperavam apenas uma ordem minha para dar aqueles poucos passos rumo à porta.

Há poucas coisas mais agradáveis para um casal do que a companhia de outros namorados.

segunda-feira, 3 de março de 2008

partir

É tarde. Chega a hora de partir. Lentamente recolho os cacarecos espalhados pelo apartamento, anotando o nome e as dimensões de cada um numa folha de papel pautado. Esse inventário será meu marco, minha referência, para os anos que se seguirão. Numerosas vezes eu o investigarei, recordando-me do que cada forma evocava, quais as lembranças e os sujeitos relacionados, o que ocorreu para que cada objeto chegasse a meu poder - um presente, uma herança, uma partilha... os despojos de um divórcio bem-sucedido, ou uma compra pura e simples. Eu relacionarei cada item e partirei sem bagagem: a bagagem é uma seleção de posses, e eu não sei se estou disposto a discriminar alguma coisa em nome do resto. Prefiro partir leve quando minha hora chegar.


Ao terminar o inventário, ergo-me da cadeira e saio para a rua. Está frio. Vêem-se as pessoas apenas ao longe. Em breve, deixarei isto aqui. Não sei se volto. Partir vem a calhar, sabe. Parto para fugir de algo. Sempre buscamos escapar de alguma coisa quando viajamos, nem que seja da monotonia, da ameaça de uma vida simples e comezinha. De bom grado renuncio à segurança de viver numa cidade da qual conheço todos os nomes, acaso isto signifique um novo começo, uma promessa de contínua revolução. Inspiro o ar frio e caminho, sabendo que será pela última vez.


Próximo, há um parque. Gangorras e balanços movem-se com o vento, mas não há ninguém. Com muito esforço, é possível confundir o uivo da brisa passando pelos galhos com o ruído de crianças brincando, mas nem mesmo eu cheguei a esse ponto para ter a solidão dominando meus sentidos.


Ao lado, há um gramado amplo. Aqui sim, estende-se um santuário para a solidão: foi onde enterrei meus amores. Ainda os vejo, cobertos por uma fina camada de sal para que nada cresça por cima. No topo, um punhado de terra estéril que serve como lápide. Nomes não são necessários, eu os conheço a todos. Cada um nasceu e morreu da maneira mais dolorosa. Erra quem pensa que o homem desconhece a dor do parto. Ele sabe o que é ter algo vivo dentro de si, esperando para nascer, e, em seguida, começar a morrer. Ele apenas pressente o negócio de modo distinto.


Preciso inventariá-los. Eles devem ir comigo. A viagem é longa, e eles me farão companhia. Lentamente, tiro do bolso a folha amarrotada de papel pautado e começo a rabiscar, procurando captar cada nome e suas dimensões, cada forma.